Você nunca me pediu para ficar, nunca ergueu a voz para que eu prestasse atenção no que você falava. Você nunca mais me olhou como se não acreditasse na beleza daquilo que via, nunca mais ergueu as sobrancelhas por alguma estupidez que eu disse. Você não me procurou mais, não bagunçou meu cabelo e me viu ficar irritada como se isso fosse a coisa mais divertida do mundo. Teus olhos não emanam mais o deleite de sempre. Você nunca mais disse que eu ficava linda com ou sem vestido, nunca mais fez piadinhas sarcásticas sobre o meu mau humor matinal. Você, sempre tão ciente da minha presença, fingiu não me reconhecer no meio da multidão. Fingiu não ver as lágrimas se formando no meu rosto, fingiu não sentir a dor nos meus olhos. Você nunca mais me abraçou e fez com que meu coração se aquecesse, nunca mais tirou o cabelo do meu rosto e riu do meu sorriso torto. Você nunca mais riu da minha cara por gostar de Crepúsculo, por chorar no capítulo Páris. Nunca mais me xingou por nunca ter assistido qualquer um desses filmes científicos que você adora. Você não me encara mais com os olhos flamejantes e nem me chama para dizer que quer apenas conversar sobre o meu dia. Você nunca mais me procurou. Nunca mais tentou me salvar. E eu, ingênua, tentei acreditar que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto, que você estava apenas em mais uma das suas tentativas mal sucedidas de me esquecer. Mas eu vi, menino, com os meus próprios olhos, a frieza do seu olhar. Tentei me enganar, mas agora é tarde demais. Você seguiu em frente, abriu suas asas e voou tão alto e para tão longe que nem que eu queira consigo te alcançar. Sou apenas uma borboleta preta, emanando escuridão. E você é um pedaço do céu. Um pedaço daquilo que eu nunca mais poderei tocar. Você aceitou essa sua nova condição estrelar e ficou bem longe de mim. E agora? Agora sou só você e eu. Você, com o mundo inteiro aos seus pés. E eu no meu canto, isolada e esperando que ainda brilhe o bastante para que seus olhos pousem sobre mim. Mas eu sei que eles não vão. Você, com todo esse esplendor, não me conhece mais. Não sabe do novo anel que ando usando, não sentiu o novo perfume que comprei. Você, que já soube dos mínimos detalhes meus, não sabe mais se ainda prefiro Rawlings ao Heathcliff, não me viu chorar nos últimos minutos daquele filme com o menino inventor. Você não reconhece mais as minhas manias e os meus gostos, não sabe se ainda prefiro os morenos ou se a minha aversão a você me fez enxergar algum encanto nos loiros. E eu, pela minha vez, não sei se teu gosto musical já se acalmou um pouco, não sei se teus olhos ainda brilham de raiva. Eu nunca mais te vi mexer no cabelo porque estava nervoso, nem socar a parede por ficar irritado. Suas palavras não me surpreendem mais. Seu estilo, sua voz, seu relógio novo. Você não me surpreende mais. Não me liga durante a madrugada para perguntar se eu estou bem. Não repara no meu novo colar, meu novo cabelo. Não balança mais a cabeça e diz que estou errada. Você age completamente… Indiferente. Indiferente à minha presença, minha opinião, minha voz, meu cheiro, minha indiferença. Você age como se mal me notasse, como se eu fosse pouco demais para ocupar espaço em sua mente. E isso tudo, essa tua indiferença, foi o maior tapa na cara que eu já recebi. A maior rasteira que a vida já me deu. Porque eu sempre acreditei que as palavras fossem a nossa maior fonte de sofrimento. Até que me vi envolta do mais gritante silêncio.
Se eu pudesse ser outra pessoa, eu não seria. Já me acostumei com meus problemas e aprendi a viver com eles - imagina ter que lidar com os problemas dos outros?